terça-feira, agosto 29, 2006

A Foto Amarelada.

Eu queria, o hoje, no hoje, era só o que eu queria.Poder entrar naquilo que ainda me faz assustada e descobrir se é certo ou não.

Foi como se eu precisasse daquilo.

Deitada no chão, sentindo o vento nas pernas e nos cabelos, cabeça no travesseiro e o resto do corpo em um mix, de chão, madeira, e frio.Chorando sem motivo.Sem motivo algum, chorando por chorar.Lavando a alma, como diria meu tio.Chorando por nada nem ninguém, nem por ele, nem por ela, nem por eles e muito menos por elas.Chorando por mim.Por mim mesma e pelas amigas Fadas, que sei, estavam ali, olhando e acompanhando.

A felicidade também tem direito de chorar.

Foi quando, por instinto, sentei, olhei para o teto, pedindo piedade, mas nada foi feito.Abri a porta do armário, e aí sim, encontrei todos os meus brinquedos.Limpei o rosto da nostalgia, e mergulhei ainda mais na mesma.Bonecas, jogos, cartas de amor, poemas de criança, roupas de Barbie, ursos de pelúcia e uma foto.

Uma foto que à tempos, não via, e que na verdade, nem lembrava que existia.Foto da colação de ABC, fazendo birra, com a cara de quem queria estar fazendo tudo, menos ali, tirando foto.No meio do meu pai e da minha tia.Era só o que eu precisava para querer voltar no tempo e largar tudo isso, apesar de, me fazer tão bem, o hoje.

As lágrimas rolavam com facilidade e caíam na minha perna, os desejos de criança, surgiam como por mágica de novo, na minha cabeça.E eu só queria poder entrar na foto e voltar a ter seis anos.Quem nunca quis voltar a ser criança?Eu sempre quero.Mas ontem, especialmente ontem, eu quis mais.

E pensei, lembrei do que o papai me dizia naqueles dias, lembrei que foi naquele ano que a mamãe foi embora, e me levou junto.E ah!Tem momentos que eu até penso que seria melhor se não tivessem ido me buscar lá.Uma mãe tem direito de estar com sua filha e ninguém pode mudar isso.Talvez, se eu tivesse ficado por lá...Não seria o que sou, mas teria sido mais feliz.

Mais feliz do que hoje?
Não, mais feliz do que ontem.

Apesar, de na época ela não ter nenhuma condição de cuidar e arcar com custos, acho que minha infâcia teria sido melhor.Não teria tantos brinquedos caros, tantos livros de qualidade e tantos CDs de histórias narradas pelo Tony Ramos.Não, não é nenhum tipo de reclamação.Mas uma criança precisa estar livre, precisa de espaço, de companhia da mesma idade, e de preferência que essas amigas, não sejam aquelas que teu pai te obrigava a brincar por serem as filhas do chefe.

Lá não, com a mamãe era diferente, eu não tinha tudo o que tive, mas tinha a felicidade que uma criança precisa ter.Na época, ela acordava antes das cinco, e eu acordava junto, ia para o comercio abrir a lanchonete que tinha, e eu lá, ajudando, muitas das vezes, recebendo dinheiro no caixa, mas estava lá.E de tarde, ela me deixava correr por tudo aquilo alí, e não havia uma viva alma, que não me conhecesse.As meninas estavam sempre comigo, não as filhas do chefe, mas as minha amigas, que hoje já tem filhos, marido e emprego, mas que contribuiam para um dia feliz.

Crianças.Só crianças.Não estou reclamando, não, não.Sei que se não fosse meu pai, minha avó, principalmente, eu não seria nem metade do que sou, e estaria lá, como as minhas amigas, com filhos aos 17 anos, e marido em casa.Agradeço, muito à ela, minha avó.Porque de qualquer modo ela lutou por mim.Mas ás vezes, eu acho que se tivesse continuado lá, não teria tido a metade dos problemas que tive.

Mas agradeço, muito.Porque se hoje, sou tudo isso, é porque ela acreditou em mim.

Hoje talvez, eu tivesse certos atritos com minha mãe se morasse com ela.E que ela realmente fosse minha mãe e fizesse o tal papel.Quando à vejo, é mais fácil ela ser minha amiga, do que mãe.Condições hoje ela tem de sobra, graças a Deus, de continuar minha criação.Mas não sei se quero.Ontem foi mais um dia de dúvida, não quero e não há, nada que me faça ir morar lá, não agora...

Quem sabe, talvez, um dia.

Quando eu não precisar mais de criação, e tenha que dá criação à alguém.

Mas eu fui feliz.Feliz corretamente, como essa meninas educada à rigor, em Belém e feliz como uma criança que brinca na rua só de calcinha, em Fortaleza.

Que vontade de voltar no tempo.

E fazer tudo, exatamente tudo, de novo.

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