Entre Flores e Discos de Vinil.
Era agosto.Agosto do desgosto, já foi dito alguma vez.Chovia como de costume nas tardes avermelhadas que emolduravam sua janela.As flores pediam permissão para voltar à terra, mas não conseguiam se fazer ouvidas.Os pássaros migravam com família à procura de um bom lugar para o ninho.Nesse cenário, com personagens à disposição; ela o conheceu.Tremia como se o frio já houvesse chegado alí, mas era o calor que alí estava.O vento seco que batia no cabelo e os impulsionava à caminho da boca.Ela nem conseguia respirar.Parada, como pedra, olhava fixamente na procura de um olhar amigo, que em fato, teve.
Ele a olhava com espanto e admiração, intentava iludir-se dizendo que conseguiria andar, mas não conseguia.Olhava para cima, e para os pés, como se já a conhecesse.Olhou e olhou, passou por ela, e conseguiu sentir o cheiro, que lhe cortava as narinas por saber que não mais sentiria.
Despertava como numa manhã, que houvesse pressa.Sentia o calor alheio passando por entre seus dedos e indo embora, olhou para trás, mas ele já havia ido...
As quatro semanas seguintes, foram como se ela estivesse com ele, e nem ao menos sabia seu nome.Saía todas as tardes, ia ao mesmo local, e nunca mais o havia visto.As esperanças se esgotavam, e a paciência também.
Foi quando por entre discos de vinil usados, ela o viu como se no dia seguinte estivesse estado com ele, falando sobre banalidades e futilidades que só um casal de verdade entende.
Segurava firme o discos que lhe apetecia levar, e mecanicamente, ele a via.Levantara o rosto e nem ao menos piscava, sentia como se um raio de sol o invadisse os olhos e lhe fazia sentir o calor.Ela parada, ele parado, com discos de vinil nas mãos, e olhares indicretos ao redor.Os discos voltavam ao seus respectivos lugares nas prateleiras, empoeirados e experientes pelo tempo.
Alí, eles se encontraram mais cinco vezes, e cada vez, era como se fosse a primeira, com os mesmo raios de sol cortando os olhos, e o mesmo calor passageiro.Um mês se passou, e parecia que já se conheciam a anos, mas sem a comunicação normal.Ela sentia-se dele, e ele sentia que a possuía.Mas nenhuma palavra fora dita, só olhares.
Ela já sabia que ele gostava de Roberto Carlos, e ele sabia que ela gostava da antiga Madonna, a sexy.Sabia que ela lia demais, e ele também lia, queria poder indicar livros, perguntar sobre livros, indicar músicas e pegar na mão delicada cheia de anéis, dela.
Foi ele que se aproximou, disse olá e ela o olhou como uma mãe olha para um filho, dando um sorriso e um oi fechado.
Estas foram as únicas palavras que trocaram, depois dalí, se viram por mais duas vezes, e nunca mais ela comprou discos da Madonna, nem ele do Rei, afinal, o encanto acabara.
Como veio, se foi.
Até hoje, ela conta a história do menino que gostava de Manuel Bandeira e Roberto Carlos, como se tivesse vivido uma linda fase de amor.E ele, lembra todas as noites da menina com anéis grandes nos dedos.

3 Comments:
Muito bom, minha florzinha.
Aaaaaah Uva, saudades.
Tô doidao, estudando agora, fim do ano.
Repetir la na facul nem rola.]
Muito lindo, vinha.
http://www.releituras.com/novosescritores.asp
Daqui a pouco tempos você veram lá:
Érika Canavarro
Quem duvida?
Só ela mesmo, só ela...
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