quinta-feira, fevereiro 28, 2008




Enquanto andava pelas calçadas quebradas da nublada cidade o avistei, sentado em um banco sobre o pouco verde que ainda restava no chão. Era frágil, os cabelos brancos e o rosto cheio de rugas, as mãos marcadas por sinais que cicatrizavam o tempo, um livro na mão e um meio sorriso nos olhos.


Sentei-me ao seu lado tirando o esmalte de minhas unhas recém-compridas, arrumei os cabelos contra o vento e tentei relaxar ouvindo o som das buzinas dos automóveis estressados que passavam. Pensando no que me disseram, eu realmente concordei, precisava me inspirar em algo, com algo...

Ele pousou o livro no colo e inspirou profundamente, eu notei, mas não pude olhar. Cruzou as pernas e perguntou: "Mora por aqui, menina?", com os pensamento flutuando respondi: "Não senhor." e foi daí que iniciamos nossa conversa. Sem precisar fazer muitos esforços descobri a história de sua vida, ou o que ele quis me mostrar. Também mostrei o que pude e o que quis sobre minhas inúmeras e humildes experiências.


Ficamos ali por mais ou menos uma hora, sabíamos o que precisávamos saber para admirar um ao outro, eu o admirava desde que o vi com o livro de Drummond em frente ao rosto. Era um senhor, que detinha dentro de si um menino encantado com as coisas modernas do século XXI, mas sem querer ter muita proximidade.


Lembrou dos tempos de mocidade, como ele mesmo nomeou. Das namoradas que teve, até encontrar a mulher que precisava, sua finada esposa, contou-me das farras que fazia quando moço: "É, minha filha, saíamos de casa pela tarde e onze horas da noite já era muito tarde para chegar, vinhámos andando, morava próximo ao centro, minha mulher morreu e minha filha me trouxe pra cá, Pedreira, não? Pois sim, voltava à pé para casa e sem medo algum. E hoje em dia, ah! E hoje em dia?"


Hoje em dia não há mais tempo para se fazer o que de fato apreciamos, hoje em dia não há tempo para parar, sentar-se num banco e ler um bom livro de um escritor brasileiro. Hoje em dia não há mais tempo para muita coisa, inclusive para o próprio tempo.



Não sei se quero viver até os noventa anos, mas de uma coisa eu tenho absoluta certeza, quero viver até onde minha mente e meus olhos permitirem, além disso, não haverá mais vida.

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